🐴 28 animais soltos no meio do nada
Ninguém apostava que aquele pequeno grupo sobreviveria mais do que alguns meses no deserto mais seco de Israel. O que aconteceu depois surpreendeu até os cientistas que acompanharam o projeto de perto. ⬇️
Quatro décadas atrás, um pequeno grupo de asnos selvagens pisou pela primeira vez em uma área do deserto de Israel de onde a espécie havia desaparecido décadas antes. A aposta parecia arriscada: entregar animais criados em cativeiro à sorte de um dos ambientes mais secos do planeta. Hoje, pesquisas recentes conseguem medir os efeitos reais dessa escolha. A manada cresceu, se espalhou e reconquistou parte do território que havia perdido para a caça e para a seca.
Por que o asno selvagem desapareceu do Neguev?
O asno selvagem asiático, cientificamente chamado de Equus hemionus, ocupava boa parte dos desertos do Oriente Médio até o início do século 20. A caça descontrolada e a disputa por pontos de água escassos empurraram a subespécie local à extinção ainda na década de 1920.
Décadas depois, um núcleo de reprodução foi formado na reserva de Hai-Bar Yotvata, no sul de Israel, a partir de parentes próximos da espécie original. Esses animais criados em cativeiro se tornaram a base de todo o projeto de recuperação que viria a seguir.
O renascimento das manadas de asnos no deserto do Neguev - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Como aconteceu a reintrodução dos asnos em 1982?
A reintrodução começou depois de anos de reprodução em cativeiro, quando os responsáveis pelo projeto, ligados à Autoridade de Natureza e Parques de Israel, decidiram soltar os primeiros animais na natureza. A escolha recaiu sobre uma formação rochosa isolada, com pouca presença humana e algum acesso à água.
Nos anos seguintes, o grupo original recebeu reforços e passou a se espalhar por conta própria pela região. Os números dessa operação ajudam a entender como o processo aconteceu na prática:
A soltura em números
🐎 1982 a 1987
28 asnos, 14 machos e 14 fêmeas, são soltos em Ein Saharonim, dentro da cratera Makhtesh Ramon.
🐎 1992 a 1993
Mais 10 exemplares reforçam a população em Wadi Paran, ampliando a área ocupada pela espécie.
🐎 Década de 1990
A manada começa a se expandir sozinha rumo às terras altas do Neguev.
Fonte: Global Ecology and Conservation, 2026 (ScienceDirect)
Passados os primeiros anos de soltura, a manada já demonstrava capacidade de se reproduzir e de se deslocar sem depender de intervenção humana constante.
Quantos asnos selvagens vivem hoje no deserto do Neguev?
Hoje, cerca de 350 desses equinos selvagens ocupam o deserto do Neguev, a maior parte concentrada nas terras altas da região. Esse número representa um salto e tanto em relação aos 28 exemplares soltos originalmente em Makhtesh Ramon.
A rotina social do grupo segue um padrão bem definido, dividido entre machos territoriais e bandos móveis de fêmeas e animais jovens. Observações de campo ao longo dos anos ajudaram a mapear esse comportamento:
- Machos dominantes defendem territórios próprios, sempre próximos a fontes de água.
- Fêmeas se deslocam em grupos, em busca das melhores áreas de forragem disponíveis.
- Machos jovens formam bandos temporários, até conseguirem conquistar um território.
O que mudou na vegetação e na água do deserto?
Um estudo da Universidade Ben-Gurion do Neguev analisou fezes coletadas por toda a região para identificar os hábitos alimentares da manada. Os pesquisadores encontraram mais de cem gêneros de plantas na dieta desses animais, a maioria nativa da flora local.
Os resultados mostram um padrão de consumo bem distribuído entre diferentes tipos de vegetação do deserto:
- Arbustos resistentes, como Helianthemum e Reaumuria, formam a base da alimentação.
- Plantas anuais completam o cardápio na primavera, quando a chuva é mais generosa.
- Espécies raras ou cultivadas aparecem em menos de 2% de tudo o que é consumido.
Um monitoramento de longo prazo feito dentro da cratera Ramon já havia registrado redução na cobertura vegetal em trechos frequentados pela manada, na comparação com áreas protegidas por cercas. Já a água segue outro caminho: a distribuição do grupo acompanha de perto os poços artificiais mantidos pela Autoridade de Natureza e Parques de Israel. Um aumento no número desses pontos, feito em 2020, ajudou a reduzir cruzamentos entre parentes próximos e preservou a diversidade genética da manada.
O que essa história do deserto nos ensina?
A trajetória desses asnos selvagens mostra que devolver uma espécie ao seu habitat original pode gerar efeitos que vão muito além da simples sobrevivência do grupo. Mais de quatro décadas depois da primeira soltura, o deserto do Neguev voltou a abrigar um herbívoro que fazia parte da sua paisagem original.
Que tal acompanhar de perto outros projetos de reintrodução de espécies pelo mundo? O próximo capítulo dessa história pode estar mais perto do que você imagina.

