Entre 1969 e 2018, palestinos sob custódia israelita realizaram 28 greves de fome.

Antecendentes

Segundo Julie M. Norman da Queen's University de Belfast, "aproximadamente 40 por cento dos homens palestinos foram presos ou detidos em alguma ocasião. Nem todos os presos são acusados ou condenados, mas muitos são detidos por vários dias ou semanas de uma vez e subjugados a interrogações. A maioria dos detidos ou são julgados num tribunal militar ou libertados. No entanto, outros são mantidos sem acusação ou julgamento numa detenção administrativa por períodos renováveis de até 90 dias".

Linha do tempo

1969 As primeiras greves de fome significantes por palestinos em custódia israelita teve lugar no início de 1969. Uma destas foi uma greve de duas semanas na Prisão de Ramla em meados de fevereiro por queixas de refeições inadequadas e serem forçados a tratar os guardas prisioneiros como "senhor". Outra foi uma greve de fome de uma semana na Prisão de Kfar Yona no fim de fevereiro pelas mesmas queixas.

1970 Duas greves de fome de prisioneiros palestinos tiveram lugar em 1970. A primeira das greves foi uma greve de fome de 8 dias por palestinos detidos na Prisão de Mulheres de Neve Tirtza, entre 28 de abril e 6 de maio. A greve chegou ao fim depois das autoridades israelitas concordarem em melhorar a ventilação nas celas e permitir que o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho entregasse produtos sanitários ás prisioneiras. Depois do fim da greve, várias das grevistas foram colocadas em celas solitárias pelos seus papéis na greve. A segunda das greves foi uma greve de 7 dias por palestinos detidos na Prisão de Ashkelon, entre 5 e 12 de julho. Durante esta greve de fome, a primeira morte de um prisioneiro palestino em greve de fome ocorreu, com o prisioneiro Abd al-Qader Abu al-Fahm morreu depois de ser alimentado à força.

1976 Em meados de dezembro de 1976, uma greve de fome significante por palestino em custódia israelita eclodiu na Prisão de Ashkelon, durando 45 dias. Entre as demandas dos prisioneiros estavam melhores refeições e cuidado médico, uma redução no uso das celas solitárias, e estatuto de prisioneiro-de-guerra. Uma delegação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha que visitou a prisão durante a greve encontrou que os prisioneiros estavam a ser fornecidos refeições adequadas. Depois do fim da greve no fim de janeiro de 1977, os grevistas de fome organizavam greves de fome adicionais de forma esporádica nas semanas seguintes. As autoridades israelitas moveram-se para perturbar estas greves adicionais ao dispersar os prisioneiros em prisões diferentes.

1980 Uma greve de fome significante por palestinos em custódia israelitas eclodiu na Prisão de Nafha em meados de julho de 1980, durando 32 dias. Dois prisioneiros iriam morrer durante a greve de fome: Rasem Halawah de 28 anos, que tinha sido condenado por um ataque terrorista que matou um e feriu nove em Gaza, e Ali Jafari de 30 anos.

1984 Uma greve de fome significativa por palestinos em custódia israelita ocorreu no outono de 1984 na Prisão de Juneid. A greve de fome foi acompanhada por uma greve geral em Jerusalém Oriental, feita em solidariedade com os prisioneiros. Segundo Zena Al Tahhan do Al Jazeera, a greve foi "considerada um ponto de viragem na história das greves de fome".

1987 Entre 25 de março e 13 de abril, três mil palestinos em custódia israelita fizeram parte de uma greve de fome pelas condições da prisão. Entre as queixas dos prisioneiros estavam sobrelotação, falta de luz do sol, falta de ventilação, abuso pelos oficiais prisionais israelitas, e a recusa do recém chefe do Serviço Prisional de Israel David Maimon de reconhecer os comités representativos auto-organizados pelos prisioneiros. A greve de fome gerou uma onda significativa de agitação pelos Territórios Palestinos Ocupados.

1992 Entre 27 de setembro e 11 de outubro de 1992, até 10,000 palestinos em custódia israelita fizeram parte de uma greve de fome pelas condições da prisão. Entre as queixas dos prisioneiros estavam durações excessivas de tempo em celas solitárias, detenção em celas subterrâneas, falta de rações e cuidado médico, como também direitos de visita familiares demasiado limitados. A greve de fome foi acompanhada por uma onda de protestos pelos Territórios Palestinos Ocupados, durante os quais várias centenas de protestantes foram feridos pelas forças israelitas, que usaram gás lacrimogéneo, balas de borracha, e ocasionalmente munição real, para dispersar os protestos. Pelo menos dois dos protestantes foram alvejados e mortos depois de atirar pedras aos soldados israelitas. Um prisioneiro morreu de um ataque cardíaco devido à sua participação na greve de fome. A greve de fome acabou depois de um acordo com o Ministro da Segurança Interna israelita Moshe Shahal para melhorar algumas condições da prisão, incluindo aumentar o tempo das visitas familiares de 30 para 45 minutos, permitindo que os prisioneiros tivessem rádios e televisões dentro das celas, acabando com as revistas corporais de rotina, e removendo amianto do teto das celas.

1995 Entre 17 de junho e 6 de julho de 1995, vários milhares de prisioneiros palestinos em custódia israelita fizeram parte de uma greve de fome exigindo a inclusão da libertação de prisioneiros palestinos nas negociações dos Acordos de Oslo. A greve de fome foi acompanha por um número de demonstrações de solidariedade pelos Territórios Palestinos Ocupados, incluindo uma greve geral pela Cisjordânia. A greve de fome acabou depois dos negociadores dos Acordos de Oslo concordarem com uma libertação gradual de prisioneiros palestinos sob a supervisão do governo israelita.

1997 Em outubro de 1997, Itaf Alayan, membro da Jihad palestina, foi presa pelas forças israelitas enquanto viajava para o funeral de um terrorista. Ela foi subsequentemente detida na Prisão de Mulheres de Neve Tirtza sem ser acusada de qualquer crime sob regras de detenção administrativa. Durante a sua detenção, ela realizou uma greve de fome em protesto da sua detenção e o uso do governo israelita da detenção administrativa. A greve de fome, que durou quarenta e três dias, foi a greve de fome individual mais longa por uma palestina em custódia israelita, e teria o recorde até 2012. Alayan foi libertada em janeiro de 1998.

2000 A 1 de maio de 2000, quase 1,000 de 1,650 prisioneiros palestinos em prisões israelitas participaram numa greve de fome de um mês, em protesto contra "tratamento arbitrário pelos oficiais prisionais, condições da prisão abaixo do padrão, proibições de visitas familiares, uso de celas solitárias, pobre cuidado médico, e a recusa de Israel em libertar todas as categorias de prisioneiros especificadas nos seus acordos com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP)". Demonstrações em massa em solidariedade com os prisioneiros irromperam pela Palestina nos dias seguintes, culminando num protesto em massa a 15 de maio (aniversário do Nakba) e acabando a 18 de maio, com 7 palestinos mortos e 1,000 feridos. Além disso, 60 israelitas foram feridos. A greve de fome acabou a 31 de maio depois das autoridades prisionais israelitas prometerem rever as queixas e aliviarem as restrições das visitas. Um relatório do governo israelita publicado em junho de 2001 sobre as condições na Prisão de Shatta observou que as condições de vida eram "particularmente duras" na ala onde os prisioneiros dos Territórios Palestinos Ocupados estavam, e concluíram que as tendas expostas e casas de banho sujas nas quais os prisioneiros residiam e tomavam banho não estavam aptas para uso humano.

2004 Em meados de agosto de 2004, mais de 3000 palestinos em custódia israelita lançaram uma greve de fome. Entre as demandas dos prisioneiros estava a remoção de partições de vidro nas áreas de visitas, acesso aumentado aos telefones, um fim das celas solitárias, e um fim às revistas corporais. Um palestino detido em Negey entrevistado pelo The New Arab em 2015 descreveu as motivações da greve como "em resposta ás medidas repressivas e humilhação praticadas contra os detidos palestinos, como revistas corporais, ás mãos dos carcereiros para conter a intifada". O governo israelita reagiu intransigentemente à greve de fome, com o Ministro da Segurança Interna Tzachi Hanegbi declarando que "No que me diz respeito, estes terroristas podem continuar em greve de fome por um dia, uma semana, um mês - ou até à morte". Numa forma similarmente intransigente, as autoridades prisionais israelitas removeram aos prisioneiros o acesso a livros, jornais, cigarros, sal, e estoque de água, junto com proibindo visitas familiares durante a greve". O Serviço Prisional de Israel declarou que iria consultar um comité de ética sobre alimentar à força os prisioneiros grevistas se necessário e acusou os prisioneiros de terem intenções maléficas, publicando uma declaração dizendo que "a demanda dos prisioneiros que eles deviam ser permitidos continuar a planear e dirigir ataques terroristas dentro das instalações do Serviço Prisional é inaceitável e infringe todas as regras de segurança existentes." A greve de fome acabou no início de setembro, depois de 18 dias. Nenhuma das demandas dos prisioneiros foi realizada. O palestino entrevistado pelo The New Arab em 2015 alegou que a falhanço da greve está na fragmentação do comité que liderava as greves em diferentes sub-comités em prisões diferentes e sub-secções de prisões, como no Conflito entre Hamas e Fatah.

Análise

Causas Hussein Al-Zrai'i, um antigo detido, alegou que os palestinos detidos por Israel passaram por greves de fome porque é "a única opção que temos de viver em dignidade face ás práticas inumanas das autoridades israelitas". Segundo Jessica Montell do grupo israelita de direitos humanos HaMoked, "greves de fome são particularmente eficazes no caso de detidos administrativos porque é uma detenção completamente fora do processo judicial". Segundo a ONG palestina Addameer, "a longa história de prisioneiros palestinos em greves em massa e individuais, revela a falta de confiança em qualquer processo judicial e a falta de garantias de julgamentos justos que eles enfrentam sob os sistemas dos tribunais militar e civil da ocupação israelita".

Significância As greves de fome palestinas são geralmente consideradas ser um aspeto importante do conflito Israelita-Palestino. Sahar Francis da ONG palestina Addameer afirmou que as greves de fome têm historicamente sido "a ferramenta mais eficaz [que os palestinos em custódia israelita] usaram para garantir direitos básicos e para melhorar as suas condições de vida diárias" nas prisões israelitas. Segundo Mustafa Abu Sneineh do Middle East Eye, "Por detrás de cada item nas celas dos prisioneiros, e cada direito obtido, está a história de uma greve de fome. Isto aplica-se ás roupas que usam, os livros que leem, o material em que escrevem, as fotos de família que estimam, e as camas e colchões de espuma em que dormem".

Organização Segundo Malaka Mohammed Shwaikh e Rebecca Ruth Gouldand do Centro Internacional de Conflito Não-Violento, "a maioria das greves de fome palestinas foram protestos coletivos envolvendo vários prisioneiros e várias instalações prisionais simultaneamente. Estas greves estabeleciam comités de prisioneiros e procedimentos de negociação padrão. Estas greves foram perturbadas pelas autoridades que isolaram os líderes em celas solitárias, impedindo comunicação entre prisioneiros e cortando os seus contactos com o mundo exterior". Segundo Hussein Khalili e Imogen Lambert do The New Arab, existe "uma diferença principal entre a atitude do Hamas e do Fatah quanto à ação dentro das prisões, onde a prioridade do Hamas parece ser libertar os prisioneiros, na vez de ver a prisão como um sítio de resistências". Segundo Lena Meari da Universidade de Birzeit, existiu uma mudança das greves de fome coletivas para greves de fome realizados por prisioneiros palestinos individuais desde os anos 90, ligada à "regressão do movimento de liberação nacional palestina na era pós-Oslo".

Respostas israelitas Segundo a ONG palestina Addameer, "as greves de fome são frequentemente enfrentadas com repressão violenta e coerciva pelo Serviço Prisional israelita e unidades especiais, como também pessoal médico que empurra os detidos a acabarem as greves de fome. Depois das greves de fome, Addameer documentou vários casos de rusgas a celas de prisão, transferências de grevistas de fome para celas de isolamento, ameaças de detenção indefinida, banir visitas familiares, redução do dinheiro gasto na cantina".

Alimentação à força Até os meados dos anos 80, o governo israelita praticava alimentação forçada de prisioneiros palestinos em greve de fome. Abdulrahim Nubani, que esteve detido pelas autoridades israelitas entre 1974 e 1994, alegou que a alimentação forçada era "usada para quebrar o espírito, não alimentar prisioneiros - era tortura", descrevendo a sua experiência pessoal de ser alimentado à força em 1980: "Ataram-se e trouxeram um tubo, enfiaram-no pelo nariz e empurraram - senti a minha cabeça a explodir, até ao meu estômago. Senti o meu estômago a queimar. Estava vazio e eles deram-nos água quente e sal, montes de sal. Estava a sangrar e sem poder". Mousa Sheikh, que esteve preso em 1963 depois de fazer parte de um tiroteio com militares israelitas, descreveu ser alimentado à força em 1970: "Os prisioneiros entram na sala algemados e com as pernas acorrentadas. Estão dois polícias em cada lado do prisioneiro, que o aterrorizam fisicamente e mentalmente. Eles cutucam-no duramente nas costelas e na nuca, falando o tempo todo de uma maneira que é suposto quebrar o espírito do prisioneiro, dizendo coisas como 'tu estás praticamente morto agora'. O prisioneiro está atado a uma cadeira para que não se mova. O doutor enfia o tubo pelo nariz do prisioneiro de uma forma severa. Quando me foi feito, eu senti os meus pulmões a fechar quando o tubo chegou ao meu estômago. Quase sufoquei. Eles deitaram leite pelo tubo, que me parecia fogo. Estava a escaldar. Não conseguir ficar quiete e dancei da dor. Dancei muito". Vários prisioneiros morreram como resultado de serem alimentados à força, a Suprema Corte de Israel baniu a prática. Em 2015, o Knesset passou a Lei do Decreto Prisional (Emenda No. 48), re-estabelecendo a alimentação forçada como uma prática legal em casos onde a greve de fome ponha em risco a vida humana ou a segurança nacional israelita. O Ministro da Segurança Pública israelita Gilad Erdan justificou a lei ao dizer que "os prisioneiros de segurança estão interessados em tornar uma greve de fome num novo tipo de ataque terrorista suicida pelo qual eles vão ameaçar o Estado de Israel". A lei foi controversa internacionalmente e dentro de Israel, com a Associação Médica de Israel declarando que "alimentação forçada é equivalente a tortura e todos os médicos têm o direito de recusar alimentar à força um grevista de fome contra a sua vontade".

Relação com a Irlanda Alguns comentadores compararam as greves de fomes dos prisioneiros palestinianos com as greves de fome dos membros do IRA durante os Conflitos na Irlanda do Norte, como a greve de fome irlandesa de 1981. Segundo Yousef M. Aljamal do Comité de Serviço dos Amigos Americanos, "a história da solidariedade irlandesa-palestina é longa e mútua... Recentemente contribuí para um livro - A Shared Struggle: Stories of Irish and Palestinian Hunger Strikers (Uma Luta Partilhada: Histórias de Greves de Fome Irlandesas e Palestinas) - no qual as histórias de alguns grevistas de fome palestinos, e os seus homólogos irlandeses, são contadas".

Referências