Demétrio Vecchioli

Acusado de ser "testa de ferro" do PCC, Paulo Camarão é irmão de ex-secretário municipal da Habitação em São Paulo

Demétrio Vecchioli
17/09/2026 10:24
Divulgação
Um dos alvos dos mandados de prisão temporária da Operação Vectura Corrupta, deflagrada pela Polícia Civil e pelo MP-SP na manhã desta quinta-feira (17/9), é Paulo Sirqueira Korek Farias, conhecido como Paulinho Farias, presidente do Água Santa, clube finalista do Campeonato Paulista em 2023. O advogado dele, Roberto Vasco, não soube dizer se ele foi preso.
A decisão que determinou a prisão temporária diz que Paulinho é “testa de ferro” do PCC enquanto gestor de duas empresas de transporte: a A2 (que é uma das principais concessionárias de transporte coletivo de passageiros na cidade de São Paulo) e a Translíder (que opera em Cubatão).
Paulinho é irmão de João Farias, um dos quadros de maior expressão no Republicanos, partido do governador Tarcísio de Fritas, na capital. Tanto que o agora “João da Habitação” ocupou diversos cargos de primeiro e segundo escalão na prefeitura de São Paulo, sempre por indicação do partido, e concorre a deputado federal.
João Farias foi secretário municipal de Esportes em São Paulo entre junho de 2018 e fevereiro de 2019. Saiu de lá para virar secretário adjunto de Habitação e logo foi promovido a secretário de Habitação pelo então prefeito Bruno Covas (PSDB).
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Ficou até agosto de 2020, saiu para trabalhar na campanha, e voltou como secretário-executivo na secretaria das Subprefeituras. Permaneceu sete meses no cargo, até ser escolhido por Nunes para voltar a ser secretário de Habitação, onde ficou até abril de 2023. No total foram quase três anos no cargo. Agora, ele é candidato a deputado federal, pelo Republicanos, como “João da Habitação”.
Já seu irmão Paulo, alvo da operação desta quinta, é empresário do setor de transportes e apontado como proprietário da A2 Transportes, uma das maiores empresas do sistema de transporte coletivo da cidade.
De acordo com a decisão que determinou sua prisão, áudios atribuídos a Paulinho Faria tratariam da venda de 63 ônibus de outra empresa de ônibus dele, a Translíder, que não tem concessão em São Paulo, por R$ 1,2 bilhão, com previsão de pagamento de comissão a José Daniel, outro investigado, indicando a conta bancária da A2 para o recebimento dos valores. José Daniel seria um “laranja”.
Para a Polícia Civil, o conjunto desses diálogos evidencia a existência de divisão de tarefas, recebimento de comissões e utilização de empresas de transporte para a operacionalização de negócios vinculados ao grupo criminoso. Paulo não é formalmente sócio da Translíder, mas seguiu mandando na empresa mesmo após sua retirada formal do quadro societário, de acordo com a decisão.
O Água Santa, depois de ser vice-campeão paulista em 2023, acabou rebaixado no estadual de 2025 e quase voltou este ano. Liderou com folga a fase de classificação, mas não ganhou nenhum jogo no quadrangular decisivo. Depois, repetiu a dose na Série D do Campeonato Brasileiro. Foi segundo no seu grupo e acabou eliminado pelo Velo Clube no mata-mata. No ano que vem, vai jogar só a A2.
Os “boatos” sobre o vínculo entre Água Santa e PCC são antigos e foram negados por Paulinho quando o clube chegou à final do Paulistão. À época, ele disse haver preconceito contra o clube, surgido da várzea em uma cidade pobre.
“Enquanto nós não tínhamos visibilidade, a gente suportou isso sempre dentro do nosso coração. Eu quero crer que é por conta de a gente ser de uma cidade humilde, de uma cidade que realmente já foi tida como a mais violenta do Brasil até os anos 2000, Eu entendi que chegou a hora, agora que a gente está tendo visibilidade, de acabar com esse preconceito. É um time humilde, sim. É um time que vem de uma cidade carente, sim. Mas é um time com muito trabalho e muita honestidade”, disse ao Estadão em 2023.


