Apontado pela Polícia Federal como engrenagem central do esquema de desvios no INSS, o advogado Willer Tomaz de Souza quer que uma casa de apostas devolva o dinheiro que perdeu jogando — R$ 163 milhões só em 2025. O argumento é que ele seria viciado em jogos de azar.Willer entrou na Justiça de São Paulo contra a Foggo Entertainment, dona da plataforma Blaze. Pelo comprovante anual emitido pela própria Blaze, ele terminou 2025 com um prejuízo de R$ 163,2 milhões. Somados ganhos e perdas, passaram pela conta dele quase R$ 10 bilhões naquele ano: ganhou cerca de R$ 4,8 bilhões e perdeu outros R$ 4,96 bilhões.A ação chegou à 44ª Vara Cível de São Paulo em agosto, dias antes de o advogado virar o principal alvo de uma nova fase da Operação Sem Desconto, que apura desvios de dinheiro de aposentados e pensionistas do INSS. Na ocasião, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Willer e o descreveu como o principal membro de um “hub logístico, financeiro e patrimonial” do esquema.O processo contra a plataforma de apostas, no entanto, pode se voltar contra o próprio autor. A PF deve investigar a origem do dinheiro que Willer usou na Blaze. Os investigadores querem saber se os recursos apostados tinham origem lícita ou se o jogo on-line funcionava como mecanismo de lavagem de dinheiro. No novo processo movido na Justiça, Willer Tomaz tenta recuperar o valor que perdeu na plataforma Blaze com base na lei que regulamentou as bets, de 2023. A norma proíbe que pessoas com diagnóstico de vício em jogo façam apostas e diz que as apostas feitas nessas condições não valem. Para se enquadrar na regra, Willer apresentou um laudo do psiquiatra brasiliense Diego Canelhas, assinado em 9 de julho de 2026, que aponta “ludopatia extrema”. Com base nesse documento, ele pede a devolução do que perdeu e mais R$ 500 mil de indenização por danos morais.Os documentos do processo mostram uma distância grande entre a renda atribuída ao advogado e o volume que ele movimentava. Uma verificação cadastral feita pela Blaze, e juntada pela própria empresa ao processo, estimava a renda de Willer em R$ 46,4 mil, com a fonte estimada como “sócio de empresa”. Os documentos juntados não deixam claro se o valor se tratava de uma renda mensal. Ao mesmo tempo, porém, ele fazia depósitos de até R$ 500 mil por vez, muitas vezes de madrugada.Segundo a defesa de Willer, a verificação só foi concluída em março de 2026, quando já tinham passado pela conta cerca de R$ 307 milhões. O documento juntado pela Blaze, porém, indica que o procedimento começou em janeiro de 2025. As mensagens anexadas ao processo também mostram operações fora do padrão exigido pelas regras do setor. Em outubro de 2025, um gerente da Blaze ofereceu a Willer a possibilidade de operar com criptomoedas, meio proibido nas bets reguladas. Segundo a defesa do advogado, porém, ele recusou. No mesmo mês, um pagamento de R$ 6 milhões da Blaze para Willer foi dividido em 400 transferências de R$ 15 mil. Uma das instituições de pagamento que processavam as transações da Blaze bloqueou Willer em 28 de outubro de 2025, por decisão própria baseada em avaliação de risco. Os motivos não constam do processo. O sistema da própria Blaze chegou a registrar o cliente como “blacklisted” ao cancelar um saque, em dezembro de 2025.No processo que corre na Justiça de São Paulo, Willer argumenta que a plataforma Blaze sabia, ou deveria saber, que ele tinha perdido o controle nas apostas, e mesmo assim o incentivou a continuar jogando. A lei das bets obriga as operadoras a acompanhar o comportamento dos clientes, sugerir limites e suspender quem mostra sinais de vício. Segundo a ação, a empresa fez o contrário. Willer era cliente VIP desde 2023, tinha gerente exclusivo por WhatsApp, chegou ao nível 171 do programa de fidelidade (ostentava o nível “Diamante II”) e ganhou acesso a uma mesa privativa de blackjack com apostas de até R$ 500 mil por rodada. Entre 2025 e 2026, recebeu cerca de R$ 42 milhões em bônus, prêmios de fidelidade e “cashback”, que devolvia ao jogador uma parte do que ele tinha perdido para ele continuar apostando. Os advogados de Willer dizem ainda que entrar na plataforma era fácil e sair era difícil: os depósitos de até R$ 500 mil caíam na hora, mas os saques eram limitados a R$ 100 mil e, muitas vezes, eram cancelados e o dinheiro voltava para o saldo de jogo. Em um único dia de junho, R$ 2,5 milhões em saques retornaram à conta e acabaram perdidos. De janeiro de 2025 a julho de 2026, segundo documentação da própria plataforma de apostas, Willer Tomaz fez 53.310 apostas na plataforma.A defesa sustenta que Willer pediu o bloqueio da conta e informou o diagnóstico ao atendimento da plataforma. “Estou com problemas de saúde. Estou viciado”, diz uma das mensagens anexadas. Em julho, um escrevente de cartório acionou a ferramenta de autoexclusão da plataforma e recebeu a resposta de que a exclusão não pôde ser processada.A empresa nega irregularidades. Diz que só começou a operar no Brasil em janeiro de 2025 e que não responde pelo período anterior. Segundo a Blaze, o laudo só teria efeito a partir de julho de 2026, quando foi emitido. Ela também afirma que em setembro de 2025 ofereceu duas vezes o fechamento da conta, e Willer respondeu que ia “aguardar”. Em junho de 2026, segundo a empresa, Willer teria recusado ferramentas de limite de gastos oferecidas pelo gerente.A defesa da Blaze também destaca o perfil do autor. Willer é advogado, já escreveu artigo defendendo a liberação dos jogos de azar e tem atuação profissional no setor de apostas. A empresa diz que isso mostra que ele conhecia bem os riscos do que contratava.Há pontos que a própria Blaze admitiu no processo. A empresa reconheceu que seus registros mostram atendimentos com o assunto “fechamento de conta” em 19 de junho de 2026. A conta, porém, só foi bloqueada em 6 de agosto, depois de uma ordem judicial. A Blaze também admitiu que seu sistema enviou mensagens promocionais ao celular de Willer em cinco datas, duas delas depois da decisão que proibia esse contato. O juiz não aplicou multa porque as mensagens saíram de outro cadastro, com e-mail diferente e telefone não confirmado.Pelas contas apresentadas pela própria Blaze, Willer depositou R$ 325 milhões e sacou R$ 180 milhões entre janeiro de 2025 e julho de 2026. A diferença é de R$ 145 milhões.Em agosto, o juiz Guilherme Madeira Dezem mandou bloquear a conta, suspender a publicidade e preservar os registros. Nesta terça-feira (29), negou o pedido para bloquear R$ 145 milhões em bens da empresa, por entender que não há prova de risco de calote por parte da Blaze. Na mesma decisão, retirou o segredo de justiça do caso. O mérito ainda não foi julgado.A RECORD pediu o posicionamento das defesas de Willer Tomaz, da plataforma de apostas Blaze e do psiquiatra Diego Canelhas. O espaço segue aberto para manifestações.Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp








