A Epic Games está reorganizando suas equipes para colocar a inteligência artificial no centro do desenvolvimento, e a mudança já afetou um de seus projetos mais aguardados. Segundo a Bloomberg, um jogo de tiro ainda não anunciado com personagens de Star Wars e Marvel, desenvolvido em parceria com a Disney, foi adiado por tempo indeterminado, e sua equipe recebeu instruções para adotar um modelo de produção "AI first" ("IA em primeiro lugar").

De acordo com a reportagem, que teve acesso a mensagens internas, os funcionários foram informados da mudança na semana passada. As orientações pedem a implementação de um modelo de produção "AI first" com ferramentas como o Claude, da Anthropic, e determinam que a arte do jogo seja "gerada com fluxos de trabalho totalmente baseados em IA". Segundo a Bloomberg, a equipe também foi orientada a não usar mais "código escrito à mão". O jogo estava previsto internamente para março de 2027.

Pouco depois da publicação da reportagem, o CEO da Epic, Tim Sweeney, comentou o assunto no X. "Temos uma enorme mudança em andamento aqui na Epic, transferindo desenvolvedores para se readaptarem visando a máxima aceleração com IA", escreveu. "O objetivo não é fazer as mesmas coisas com menos pessoas, mas permitir que todos aqui construam MAIS coisas e coisas MELHORES, e levar os benefícios a todas as equipes que usam a Unreal."

Questionado sobre a percepção de que a Epic não estaria "lendo o ambiente" diante da resistência do público à IA generativa, Sweeney respondeu: "Grande parte do ambiente quer que seja 2016 de novo, mas não é. Nosso trabalho, como fornecedor de ferramentas e tecnologia para boa parte da indústria, é projetar para o presente que existe e para o futuro que logo existirá. Pessoalmente, sou otimista e vejo isso como algo que dá poder aos criadores." Sobre uma possível aceleração de um IPO, disse que o objetivo da empresa é mais modesto: "sobreviver à revolução da IA, ajudar outros desenvolvedores a fazer o mesmo e sair do outro lado fazendo código e conteúdo melhores e mais rápido".

O executivo também deu números sobre os ganhos de produtividade. "Neste momento, isso varia muito, de 20% em algumas áreas, como as mais técnicas do desenvolvimento da Unreal Engine, a 5 vezes em outras, como desenvolvimento web. Até esta época do ano que vem, espero que muito pouca coisa fique abaixo de 3 vezes a eficiência de janeiro de 2026", afirmou. Para ele, a maior mudança no design de jogos será a redução do tempo entre ter uma ideia e testá-la: "Isso será ótimo para a jogabilidade, já que a maioria dos fracassos recentes de jogos AAA pode ser atribuída a sistemas de jogo que passaram tempo demais do desenvolvimento sem poder ser testados".

Dias antes, em 7 de outubro, Sweeney já havia atribuído à aceleração com IA um aumento significativo da receita dos vendedores na Fab, o marketplace de assets 3D da Epic, em setembro. Segundo ele, a tecnologia tem gerado mais demanda por conteúdo, com muitos desenvolvedores usando assistentes de IA para montar cenários enquanto compram os elementos na loja.

A IA também está no centro dos planos para a próxima versão da engine. Em junho, a Epic detalhou o caminho até a Unreal Engine 6, que vai unificar a Unreal Engine 5 e o Unreal Editor for Fortnite em um único produto. A empresa disse estar criando uma integração via MCP com modelos como Claude e Gemini, aprimorando o Epic Developer Assistant e prevendo um papel central para LLMs e ferramentas como Claude e Codex na criação de conteúdo. Na ocasião, a Epic informou ainda que havia liberado amplamente o uso de geração de código e análise com IA em suas equipes de backend, engine e desenvolvimento de jogos, embora a maior parte desses usos ainda não gerasse código da linha principal da Unreal Engine. O acesso antecipado da UE6 está previsto para o fim de 2027.

A virada acontece meses depois de a Epic demitir mais de mil funcionários, em março. No comunicado aos funcionários, Sweeney citou a queda no engajamento de Fortnite iniciada em 2025 e afirmou que a empresa gastava muito mais do que arrecadava, além de identificar mais de US$ 500 milhões em cortes de custos em contratação de terceiros, marketing e vagas abertas. Na ocasião, ele fez questão de dizer que "as demissões não estão relacionadas à IA" e que, à medida que a tecnologia aumentasse a produtividade, a Epic queria o maior número possível de desenvolvedores criando conteúdo e tecnologia.



